Imenso

As crianças gritam lá fora, num pula-pula infinito. Os gritos me irritam, então, eu grito com eles para eles pararem. Não dá certo, claro. A raiva não educa, a calma educa, não é? Será que chego lá? 

Volto às palavras como quem vai à terapia (que vou), ou como quem medita (que não pratico mais, porque não há nem tempo, muito menos espaço), ou como quem se medica para se acalmar (o que não faço), ou como quem faz esporte (o que eu faço caber no tempo, como que por um milagre).

Das escolhas da vida, ter filhos, três, homens, pelo caminho da adoção, é, sem dúvida, meu grande Everest. Eu achei que sabia, mas é muito mais imenso. Deve ser como quem, ainda adulto, nunca viu o mar. Talvez só pela TV. E, um dia, vê o mar. Não é igual. O mar, ao vivo, é o mar. Imenso. Não cabe na tela.

Li há muitos anos o livro do John Krakauer, "No ar rarefeito". Ele narra sua própria saga em subir o maior cume do mundo. Seu papel maior é este, mas ele o faz observando e nos contando como é aquele mundo. Quem são as pessoas que se propõem a isso, como é o ambiente, as instalações, as dificuldades, as superações, as mortes, o reconhecimento dos limites. Fala também dos habitantes locais, que levam bagagem para os alpinistas, sem os quais eles não completariam a meta. Os verdadeiros alpistas, quero dizer.

Ser mãe-alpinista do Everest de três meninos, sem ter subido nem as Agulhas Negras (se bem que subi muita coisa por aí), é loucura. De verdade. Eu hoje me sinto bem louca. O bom que é a loucura não uma coisa que, necessariamente, me estranha ou me assusta. No fundo, eu acho que as experiências mais vivas precisam dela. E eu posso dizer: estou bem viva. Acho que é isso que os alpinistas buscam.


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