Pena e cavalo
As flores em frente ao prédio vizinho estão com sementes. São várias bolinhas pretas. Lembram as sementes usadas para fazer caxixi. Eu paro para colhê-las. Não sei o que vou fazer com elas ainda, mas quero que minhas mãos as sintam e minha mente se abra para outras subjetividades, além das que estão muito me ocupando nessa fase da vida. Também paro no pé de amora, para achar as raras frutas maduras em meio a tantas ainda rosinhas. Daqui algumas semanas estará perfeito. Encontro com um pardal que está na mesma busca que eu. Ele só me nota quando estamos muito perto. Leva um susto e cai da árvore. Logo se apruma. É uma cena curiosa. Primeiro, ele não me notar antes e, depois, sendo um pássaro, cair de susto. A vida tem sua graça. Encontro uma pena no caminho e lembro que eu gosto de pensar que há um tipo de comunicação mística que, as vezes, acontece entre nós e algo além. Já vivi um tanto delas. Como na época em que conhecemos os meninos. De um cavalo aparecer à porta do quarto na madrugada, quando ainda morávamos no sítio. Esse animal tão associado à intuição, ao mundo espiritual, à capacidade de acessar níveis mais elevados de consciência, aparecer nesse momento de tanta coragem e medo. Era o cavalo do vizinho, mas que para chegar lá, atravessou um vale inteiro no meio da mata. Só aconteceu esta vez em 5 anos que moramos no sítio. Ainda nessa época, ganhei de aniversário uma imagem de santa da minha mãe, que é nada católica praticamente, digamos, dizendo que era a Nossa Senhora, e que minha vó era devotada dela. Sua intenção era para trazer minha vó, uma mulher muito sábia e boa com crianças, para mais perto de nós. Mas a imagem não era Nossa Senhora, era Santa Teresinha, que, por acaso, era a igual a imagem da santa de devoção de minha avó, que eu herdei. Ou seja, minha mãe achava que a santa da minha vó era uma e comprou a imagem errada, mas que era a certa. Minha vó, certamente, chegou junto e se fez ouvir. Docemente, no seu melhor estilo. Teve também a vez que a Flor, minha cachorra parceria, maravilhosa, se foi. Foi muito difícil a morte dela para mim. Como em poucas outras ocasiões, tive muita resistência e revolta com os fatos. Ela era uma cachorra com um porte perdigueiro, magra, toda negra. De uma calma e carinho, impressionantes. Eu gostava de chamá-la de princesa. No dia após sua morte, floriu uma orquídea que ganhamos de uma amiga, cujo pai era colecionador. Fui ler o nome da espécie: Princesa Negra. Foi bonito. Voltando ao dia das sementes, da amora, da pena. Mais tarde no dia, uma outra peninha cai no meu braço, quando estamos almoçando na Rua do Porto. Duas penas num mesmo dia. Elas, como os cavalos, também simbolizam a ligação com o mundo espiritual. Há quem diga que são um sinal de que estamos sendo acompanhados e protegidos. Eu acredito e agradeço. Há fases em que essa comunicação de libera, eu acho. Estou numa delas. Que eu possa sempre ouvir. A vida fica maior e mais bonita assim.
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